Textos Críticos

Catálogos 2015/2018

Seja quando suas obras se referem ao mundo exterior, seja quando se referem a interiores – ou, nas palavras do próprio artista, ao mundo interior – o elemento dominante da pintura de Marcos Duprat é a luz, que ele apreende através do uso rigoroso da técnica tradicional da velatura. Esta consiste na produção da cor através da sobreposição, por transparências e acréscimos, de diversas camadas de tinta. Trata-se, como já observou, a propósito de uma exposição de Duprat, o grande crítico José Guilherme Merquior, de “uma pintura lenta, em adágio, propícia à meditação do duplo, à ponderação da série, à perquirição da profundidade”.

Assim, as pinturas de Duprat, como toda verdadeira obra de arte, são produzidas através de uma relação dialética – de amor e de luta – entre suas intenções iniciais e a atenção às exigências, aos caprichos e às sugestões da obra in fieri. A cada passo, ele se sente solicitado pela própria pintura a desenvolver novas soluções pictóricas, em função tanto das necessidades de cada situação imprevista quanto de oportunidades que antes não existiam. Duprat conhece profundamente a complexa relação entre o pintor, a matéria com a qual trabalha e a técnica que emprega. É sem dúvida ao uso sutil e criterioso da velatura que se deve a extraordinária pulsação cromática de suas obras.

Nas pinturas que se referem ao mundo interior destacam-se, por um lado, janelas, portas, corredores e passagens iluminadas que conduzem ao mundo exterior e, por outro lado, espelhos que, por sua faculdade reflexiva, evocam a possibilidade da introspecção, ou seja, de uma interioridade ainda mais profunda. Aliás, observe- se que, também nas telas referentes ao mundo exterior, encontra-se – nos reflexos luminosos das superfícies líquidas dos mares ou lagos que contêm – a sugestão da autocontemplação, isto é, de um retorno ao mundo interior. Temos assim um incessante retorno do mundo exterior ao interior, e vice-versa. O fato é que a pintura de Marcos Duprat (pondo entre parênteses a apreensão meramente instrumental e utilitária do mundo que domina nossa vida cotidiana) convida nossa imaginação a não apenas passear pela superfície de suas telas, mas a mergulhar nos seus diáfanos corredores, espelhos, passagens, lagos e mares.

Antonio Cicero Lima
Rio de Janeiro, 2018

Marcos Duprat é um dos raros artistas de sua geração com erudita formação. Transita entre a pintura e o desenho agregando, sempre que possível aos seus trabalhos, suas lembranças e experiências. A exposição Memórias sobre o papel celebra os seus quarenta anos de carreira e apresenta desenhos, pastéis e aquarelas. Suas obras pulsam e transmitem poesia.

Marcos Duprat experimenta novos materiais e texturas, distorce os espaços com maestria, devolvendo ao espectador uma composição plena de elementos, com luz própria, que nos convida, muitas vezes, a mergulhar no espaço. Cada obra possui a sua identidade, sua escolha e, acima de tudo, sua pujança lírica.

Os nossos agradecimentos a todos que tornaram possível a realização da exposição Memórias sobre o papel, de Marcos Duprat, autor de uma obra construída com rigor e profundo sentimento humanista.

Sejam bem vindos!

Monica F. Braunschweiger Xexéo
Diretora do MNBA / IBRAM / MinC, 2017

A obra do artista brasileiro Marcos Duprat é relativamente pouco conhecida em seu país.

A exposição LIMITES reúne uma seleção de 60 obras do acervo pessoal do artista realizadas ao longo de mais de quatro décadas de sua atividade criativa combinada à carreira diplomática. São pinturas a óleo sobre tela e papel, em que utiliza também pastel, aquarela e lápis, que evoluíram da figuração à abstração.

O conjunto da obra de Marcos Duprat é tributário de sua vivência singular e fecunda como artista e diplomata com o olhar atento às produções mais significativas das artes brasileira e estrangeira com as quais manteve contato direto e enriquecedor. Após sua formação artística e mestrado em Washington, D.C., os sete anos na Europa e nove em países asiáticos deixaram traços nítidos em seus trabalhos.

A exemplo de Bill Viola e Hiroshi Sugimoto, artistas contemporâneos que atuam como curadores de suas próprias exposições, Duprat é o curador da presente mostra, que a Fundação Biblioteca Nacional tem o prazer de realizar, de modo a proporcionar o encontro do público carioca com a sua trajetória criativa.

Helena Severo
Presidente da Biblioteca Nacional, 2016

Passagens

Marcos Duprat volta a expor em São Paulo após uma ausência de cinco anos. Trata-se de um reencontro desejado com o público paulista na busca de ilustrar etapas do processo de amadurecimento e transformação de sua linguagem plástica. Tem como ponto de partida trabalhos iniciais, até chegar à produção das duas últimas décadas e às obras recentes.

O artista como criador independente, é também o curador ideal de suas apresentações. Ao escolher e oferecer à contemplação aquelas obras que correspondem às passagens por ele sentidas como cruciais e determinantes no desenvolvimento do conjunto de seu trabalho, oferece ao espectador a possibilidade de participação em conjunto de seu trabalho, oferece ao espectador a possibilidade de participação em sua esfera íntima de criatividade.

Iniciada a formação artística no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, complementou-a com o exercício da pintura e, nos anos 70, com o Mestrado em Belas Artes na American University, em Washington, D.C.

Seus primeiros trabalhos, puros e com toque de jovem sensualidade, inscrevem-se no âmbito de influência neo-figurativa, então dominante nos Estados Unidos. Diferem, no entanto, do realismo fotográfico da época, na medida em que, já então, o artista ameniza contornos, confere fluidez aos encontros de figura e entorno, e adota pinceladas fluidas. Busca exprimir, or um delicado cromatismo, o anseio de captar a luminosidade como fulcro e essência da tela.

Nesta fase, dada a circunstância de uma exigente atividade profissional, o trabalho é de ateliê, realizado nos horários noturnos, sob luz artificial e, nos fins de semana, ante janelas abertas. Duprat explora os limites do ateliê. As cores são em geral frias. Figuras humanas, quando aparecem, estão em um cerco de paredes, muros e portas. Janelas e passagens são testemunhas da introspecção criativa de retratados e retratista. Há um distanciamento psíquico entre artista e personagem, um recuo que confere à figura caráter evocativo, quase abstrato. Nos ambientes despojados, vidraças e espelhos prestam-se ao jogo de transparências, a enlevos narcisistas e à exploração do tema do duplo, de tão profundas ramificações emocionais.

Detecta-se pouca variação cromática – embora o tratamento seja rico e nuançado nos trabalhos realizados em Lima, Brasília, Milão, Montevidéu e Budapeste, cidades nas quais viveu sucessivamente.

É na virada do século XX que Marcos Duprat volta ao Japão, onde morou na adolescência. Conservava recôndita afinidade com a estética japonesa. Ali a paleta se libera e enriquece. Há uma nova ousadia na fatura, ao mesmo tempo em qeu a natureza começa a oferecer-se a seu traço sensível e delicado. A luz continua a ser tratada como elemento de articulação na criação da imagem e conduz agora a imagens oníricas e à contemplação de espaços virtualmente construídos pela cor.

O conjunto é integrado por cerca de cinquenta obras sobre papel e tela. A técnica de trabalho de Duprat é a velatura, em que a cor resulta da superposição de pigmentos em camadas. Nas telas, o meio empregado é o óleo, enquanto no papel usa óleo, pastel oleoso, aquarela e lápis.

O crítico norte-americano Ben L. Summerford assinalou haver em sua pintura “… uma qualidade que toma corpo em um espaço atemporal, no qual se testemunham não propriamente ocorrências mas o conhecimento de potencialidades…”

O trabalho em curso apresenta radical renovação. O plano pictórico compõe-se de áreas de cor em expansão, construídas por pinceladas que obedecem a um ritmo concêntrico e radial. A tensão resultante sugere o efeito de refração da luz na atmosfera e cria superfícies que evocam ou configuram horizontes e paisagens cromáticas.

Vera Pedrosa
Rio de Janeiro, 2015

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